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As formações savânicas encontradas na região pertencem ao Bioma (ou Domínio) do Cerrado. O Cerrado é considerado um dos centros mundiais de diversidade biológica, com riqueza estimada em mais de 6600 espécies de plantas vasculares (Mendonça et al., 1998), e encontra-se ameaçado pela expansão da agricultura mecanizada, que já destruiu mais da metade de sua área original, de dois milhões de quilômetros quadrados (Ratter et al. , 1997). Agravam esta situação a escassez de áreas protegidas, a inexistência de proteção legal contra a destruição dos remanescentes e as diversas formas não sustentáveis de uso de seus recursos naturais.

O bioma Cerrado engloba formações florestais, savânicas e campestres. As formações savânicas são aquelas áreas com predominâncias de espécies arbóreas e arbustivas, espalhadas sobre um substrato graminoso, sem a formação de um dossel contínuo (Ribeiro & Walter, 1998). Veloso et al. (1991) considera Savana como uma vegetação xeromorfa, preferencialmente de clima estacional, encontrada sobre solos lixiviados aluminizados, apresentando sinúsias de hemicriptófitos, geófitos, caméfitos e fanerófitos oligotróficos de pequeno porte, com ocorrência por toda Zona Neotropical. Quatro subgrupos de formação foram reconhecidos: Savana Florestada (Cerradão), Savana Arborizada (Campo Cerrado), Savana Parque (Parque de Cerrado) e Savana Gramíneo-Lenhosa (Campo.)

As fisionomias de vegetação savânica apresentam um gradiente de características estruturais, dependendo das condições ecológicas, das variações edáficas ou da ação antrópica (Oliveira Filho et al. , 1989; Ribeiro & Walter, 1998). Neste último caso, a ação do homem pode modificar a estrutura e a composição florística (Ribeiro & Walter, 1998). Dentre os subtipos descritos por Veloso (1991), pode-se encontrar na porção Sul do Espinhaço dois subtipos: Savana (Cerrado) e Savana Gramíneo-Lenhosa (Campo sujo ou campo ferruginoso).

A Savana Arborizada corresponde ao Cerrado sentido restrito, caracterizado pela presença de árvores baixas, tortuosas, com ramificações irregulares e retorcidas, casca grossa e folhas rígidas e coriáceas. Os arbustos e subarbustos encontram-se espalhados, com algumas espécies apresentando órgãos subterrâneos perenes (xilopódios), que permitem a rebrota após a queima ou corte. Na época chuvosa, os estratos subarbustivo e herbáceo tornam-se exuberantes, devido ao seu rápido crescimento (Ribeiro & Walter, 1998). Na região esta fitofisionomia domina as áreas mais baixas da sub-bacia do rio Parapeoba, de relevo plano ou ondulado, com solos mais profundos, em uma faixa altitudinal de 1000 a 1200m , e que se estendem de oeste a norte. Em termos florísticos, encontramos espécies características dessa formação, como o pequizeiro (Caryocar brasiliense), o pau-de-tucano (Vochysia tucanorum), os pau-terras (Qualea spp.), o murici (Byrsonima verbascifolia), o barbatimão (Stryphnodendron adstringens), a caviúna-do-cerrado (Dalbergia miscolobium), a pinha ou marolo (Annona crassifolia), a carne-de-vaca (Roupala montana), a douradinha (Palicourea rigida), a quina-mineira (Remijia ferruginea), guabiroba (Campomanesia adamantium), a lixeira (Davilla elliptica) e a candeia (Eremanthus eleagnus).

A savana arborizada apresenta a estrutura típica do cerrado sentido restrito, com espécies arbóreas de pequeno porte, atingindo até 6 m de altura, com caules suberosos e retorcidos, além de espécies arbustivas e herbáceas. A estrutura varia também em função do grau de perturbação antrópica, pois algumas áreas da região encontram-se bastante degradadas. A savana arborizada brasileira foi classificada em sete diferentes grupos florísticos por Ratter et al. (2003), tendo sido reconhecido um grupo correspondente ao Centro-Sudeste, com áreas do Distrito Federal, áreas vizinhas de Goiás e centro e sul de Minas Gerais, no qual se deve inserir a área do PESRM. Nas encostas da Serra do Rola-Moça, a Savana Arborizada é substituída gradativamente pela Savana Gramíneo-Lenhosa. À medida que a altitude aumenta, as espécies arbóreas e arbustivas vão se tornando mais escassas e a paisagem vai adquirindo uma fisionomia campestre, dominada por espécies herbáceas e subarbustivas. Isso faz com que os limites entre essas formações, para fins de mapeamento, sejam bastante imprecisos.

O subtipo Savana Gramíneo-Lenhosa é definido como uma fitofisionomia que, em estado natural, apresenta gramados entremeados por plantas lenhosas raquíticas. Quando manejados através do fogo ou pastoreio, os hemicriptófitos (plantas herbáceas com gemas ao nível do solo) vão sendo substituídos por geófitos, que se distinguem por apresentarem sistemas subterrâneos resistentes ao pisoteio do gado e ao fogo (Veloso et al., 1991). Esse tipo de vegetação pode apresentar-se como Campo Sujo, correspondendo a uma formação campestre do Cerrado, exclusivamente herbáceo-arbustiva, com arbustos e subarbustos esparsos, cujas plantas são muitas vezes constituídas por indivíduos menos desenvolvidos das espécies arbóreas do Cerrado sentido restrito (Ribeiro & Walter, 1998). A Savana Gramíneo-Lenhosa cobre extensas áreas na região, ocorrendo nas regiões mais altas (de 1200 a 1432m) e de relevo em geral fortemente ondulado. Ela está associada, em parte, ao substrato de canga nodular, tendo sido denominada Campo Ferruginoso (Rizzini, 1979) ou Campo Hematítico sobre Canga Nodular (Vincent, 2004). A Canga Nodular, por ser originária da fragmentação da Canga Couraçada, é geralmente encontrada nas encostas abaixo desta. O solo é caracteristicamente ácido, possuindo médios teores de potássio e magnésio e altos teores de boro e cálcio e de metais como ferro, manganês, cobre e zinco, originários da desagregação da rocha-mãe (Vincent, 2004). Essa formação é dominada por espécies das famílias Poaceae, Asteraceae, Fabaceae e Cyperaceae. Numa área de canga couraçada na Serra do Rola-Moça, foi registrada uma alta dominância de Poaceae, sendo este o grupo responsável por mais de 60% do valor de cobertura da vegetação (Vincent, 2004). As espécies mais importantes, em termos de densidade, foram Trachypogon spicatus, Axonopus cf. pressus, A. siccus e Andropogon ingratus. O capim-meloso, Melinis minutiflora, uma espécie africana introduzida no século XVIII em Minas Gerais , foi a quinta espécie em valor de importância, o que demonstra sua agressividade nesse ambiente e exige medidas de controle populacional. Na paisagem da Savana Gramíneo-Lenhosa, às vezes encontramos elementos arbustivos e arbóreos típicos da Savana Arborizada, ocorrendo de forma esparsa, como Stryphnodendron adstringens, Dalbergia miscolobium e Byrsonima verbascifolia. Também merecem destaque as populações de canelas-de-ema (Vellozia spp.), arbustos de arquitetura peculiar, que atingem até 2 m de altura. As populações dessa espécie vêm sendo drasticamente afetadas pelas queimadas, sendo observados com freqüência indivíduos mortos pelo fogo. Na Savana Gramíneo-Lenhosa foram registradas as seguintes espécies presentes na lista vermelha das espécies ameçadas de extinção da flora de Minas Gerais (Mendonça & Lins, 2000): Aulomenia effusa (Poaceae), Camarea hirsuta (Melastomataceae), Cinnamomum quadrangulum (Lauraceae), Calibrachoa elegans (citada como Petunia elegans ) (Solanaceae) e Mikania glauca (Asteraceae).