Região =>Caracterização Ambiental => Bioespeleologia e Limnologia

Bioespeleologia

O Estado de Minas Gerais destaca-se no cenário nacional por importantes ocorrências de rochas com elevada tendência à formação de cavidades. Neste contexto é possível destacar o quadrilátero ferrífero, com uma considerável porção situada nas proximidades da região metropolitana de Belo Horizonte. Nesta região, já foram identificadas, em estudos geológicos e espeleológicos pretéritos, extensos campos ferruginosos, sob os quais se desenvolvem cavernas. Trabalhos de prospecção que vem sendo realizados (sob coordenação da MBR) têm revelado um número bem superior de cavidades na região do entorno do Parque, de forma que o potencial espeleológico da área é bastante alto.

O número de cavidades inventariadas no PESRM é inexpressivo comparado ao número real de cavernas presentes na região. De forma geral, as cavidades apresentaram baixa similaridade entre as comunidades biológicas, o que evidencia a importância da estrutura física e trófica (com particularidades inerentes a cada caverna) para a determinação de quais espécies possuem viabilidade de colonização e permanência em cada cavidade. Na prática, isto significa que a destruição de cada uma das cavernas analisadas dificilmente acarretará em colonizações futuras que culminem com a instalação bem sucedida destas comunidades em outras cavernas da área.

Desenvolvimento de Sistemas Subterrâneos em Campos Ferruginosos

Dois tipos estruturais distintos têm sido observados com relação às cavidades de minério de ferro (Pilo & Auler, 2005): cavidades em borda de platô situadas em zonas de ruptura da cobertura de canga e cavidades topograficamente não relacionadas a bordas de platôs. O primeiro autor a reconhecer tal distinção foi Simmons (1963), o qual denominou as cavidades do primeiro tipo (em geral de pequenas dimensões) de cavernas de erosão e as do segundo tipo de cavernas de dissolução. As cavernas de erosão possuem gênese determinada primariamente pela simples erosão de partículas de granulometria fina (Bowden, 1980). As cavernas de dissolução, entretanto, são formadas aparentemente por atuação de processos endogenéticos, onde os agentes formadores de vazios atuam estritamente no interior do corpo rochoso. Tais agentes consistem de soluções que dissolvem ou precipitam minerais levando (por variados processos, apresentados em diferentes modelos endogenéticos) à formação de espaços subterrâneos. Segundo Pilo e Auler (2005), o modelo endogenético, não importando as etapas geoquímicas envolvidas, é fundamental para explicar o fato de existirem cavidades no interior da rocha sem nenhuma ligação direta com canais de escoamento. As entradas poderiam ser formadas em um estágio mais tardio de evolução das cavernas. Segundo estes autores, o fato das entradas invariavelmente possuírem dimensões incompatíveis com o volume interno das cavidades parece sugerir que realmente possa tratar-se de feições posteriores. O colapso de blocos das paredes e teto, conforme amplamente conhecido na literatura, contribui para alterar a morfologia das cavernas durante os estágios tardios, já na zona vadosa, da evolução espeleogenética.

Características Gerais de Ecossistemas Subterrâneos Ferruginosos

Os sistemas subterrâneos ferruginosos mostram consideráveis variações em condições estruturais e mesmo funcionais. Mesmo assim, é perceptível a existência de certas características bastante peculiares a estes sistemas (Ferreira, no prelo). Uma das principais características dos sistemas subterrâneos associados a campos ferruginosos é a existência de grande quantidade de canalículos que conformam uma extensa rede de espaços intersticiais (meso e microcavernas) conectados às macrocavernas. Tais características não são exclusivas de sistemas subterrâneos ferruginosos, podendo ocorrer também em diferentes litologias, como em tubos de lava (Oromi & Izquierdo, 1994; Howarth, 2001). Tais espaços são utilizados por inúmeros organismos que transitam desde a superfície (provenientes de habitats lapidícolas) até regiões mais interiores, eventualmente conectadas a macrocavernas. Além disso, merece ser citada a aparente “superficialidade” das cavernas ferruginosas. Como grande parte destas cavidades desenvolve-se na canga, muitas se apresentam como espaços subterrâneos relativamente superficiais. Tal condição, associada à presença dos canalículos, possibilita um trânsito mais freqüente de elementos de fauna entre sistemas epígeo (serrapilheira ou habitats lapidícolas) e hipógeo. Tal fato é perceptível quando se observa a considerável variação em composição de espécies nas comunidades destas cavernas ao longo do tempo. Caso o intercâmbio de fauna ocorresse exclusivamente pelas entradas, poderia se esperar uma maior variação em composição de espécies nas imediações de entradas. No entanto, nas cavernas ferruginosas, existe substituição de espécies (mesmo em organismos de baixa motilidade) em áreas mais profundas das cavidades, indicando um eventual intercâmbio via canalículos.

Limnologia

A região do PESRM se situa na bacia do rio das Velhas, nas proximidades do interflúvio com a bacia do rio Paraopeba. A partir dos altiplanos se desenvolvem as seguintes bacias hidrográficas: ribeirão Mutuca, córrego dos Fechos, córrego Seco (afluente do córrego dos Fechos, ribeirão da Catarina e córrego Barreiro). Das bacias referidas, a de Catarina integra a bacia do rio Paraopeba e as demais integram a bacia do rio das Velhas. As vertentes destes cursos d'água mostram gradientes elevados, conseqüência de uma erosão diferencial intensa que favoreceu o desenvolvimento de morfologias abruptas nas cabeceiras. O regime de fluxo da maioria dos cursos d'água mostra variações sazonais importantes, com respostas rápidas às chuvas. A vazão circulante diminui, em geral, no princípio do outono e se recupera de novo no início da primavera, quando se reinicia o período chuvoso. A término da estação chuvosa, as vazões se mantêm durante certo período de tempo, graças ao aporte da água armazenada no sistema hipodérmico, e nos solos relacionados às matas de galeria, que se acumulam ao longo dos cursos d'água. Nestas bacias existem diversas captações de água, interligadas aos sistemas de abastecimento urbano administrados pela Companhia de Saneamento de Minas Gerais - COPASA-MG. Como conseqüência deste uso da água, dispõe-se de registros históricos de hidroquímica e de vazões em diversos pontos. A partir de 1994, a rede de monitoramento de vazões existente que, até essa data, monitorava unicamente vazões captadas para o abastecimento, foi ampliada. Desta forma, foram implantados vários vertedores em diversos córregos das bacias da Mutuca, Fechos, Córrego Seco, Barreiro e Catarina. A qualidade das águas e a biodiversidade aquática dos ecossistemas representativos do PESRM indicaram uma boa qualidade da água nos mananciais da unidade de conservação. A classificação dos mananciais como áreas de proteção especial garantem a manutenção da qualidade destes ambientes que abastecem parte da população da região metropolitana de Belo Horizonte.