Região =>Caracterização Ambiental => Vegetação => Campo Rupestre Ferruginoso

Diversas terminologias são aplicadas à vegetação encontrada sobre a canga. Ela pode ser denominada simplesmente Campo Rupestre (Eiten, 1983) ou como um subtipo de Campo Limpo (Rizzini, 1979). Também pode ser chamada de vegetação metalófila (Porto & Silva, 1989), caracterizada pela presença de espécies vegetais que, muitas vezes, apresentam nanismo ou gigantismo e, ao mesmo tempo, altas concentrações de metais em seus tecidos. Dois tipos de cangas foram reconhecidas por Rizzini (1979), denominadas Canga Couraçada e Canga Nodular. O primeiro é constituído por uma concreção ferrosa, formando uma laje sobre o substrato, repleta de cavidades. No segundo tipo, a concreção encontra-se fragmentada em pedaços geralmente pequenos, os quais compõem substratos muito duros, mas algo penetráveis. Consideramos como refúgio vegetacional apenas aquela vegetação sobre a Canga Couraçada, pois sobre a Canga Nodular encontra-se uma vegetação com elementos característicos da Savana Gramíneo-Lenhosa, sendo difícil distinguí-las. A vegetação sobre a Canga Couraçada no Quadrilátero Ferrífero localiza-se nas áreas mais altas, geralmente nos topos dos morros, em altitudes superiores a 1350m . A vegetação cresce sobre a rocha (sendo chamada de rupícola) e o solo é escasso, estando geralmente acumulado nas fendas e gretas entre as rochas. Análises desse solo, evidenciaram que ele é muito ácido, possui alta capacidade de troca catiônica, baixos teores de fósforo e magnésio, médios de potássio, altos de boro e cálcio e cátions metálicos, com ferro, zinco, cádmio, níquel e chumbo (Vincent, 2004).


Estudos fitossociológicos realizados num trecho desse tipo de campo, localizado na Serra da Mutuca, registraram as famílias Orchidaceae, Asteraceae, Velloziaceae e Poaceae como as mais importantes em termos de cobertura. Hoffmannseggella caulescens (citada como Laelia caulescens ) e Pleurothallis teres (Orchidaceae), Vellozia resinosa e Barbacenia sp. (Velloziaceae) e Peperomia decora (Piperaceae) foram as espécies de menor porte mais comuns, enquanto Lychnophora pinaster (citada como L. ericoides ) e Chromolaena multiflosculosa (Asteraceae), Mimosa calodendron (Fabaceae) e Stachytarpheta glabra (Verbenaceae) foram os poucos representantes de maior porte (Vincent, 2004). Quatro espécies ocorrentes sobre a Canga Couraçada estão relacionadas na categoria vulnerável na lista vermelha das espécies ameçadas de extinção da flora de Minas Gerais (Mendonça & Lins, 2000). São elas Artrocereus glaziovii (cacto), Ditassa linearis, Lychnophora pinaster (arnica) e Cinnamomum quadrangulum. A primeira espécie é endêmica desse ambiente, no Quadrilátero Ferrífero, e são necessários estudos sobre sua biologia reprodutiva, distribuição geográfica e demografia para a avaliação do seu estado de conservação. Lychnophora pinaster é utilizada para fins medicinais e tem sido objeto de coleta intensiva por raizeiros; faltam estudos do impacto dessa prática nas populações naturais.

Alguns capões de mata são encontrados sobre a canga couraçada, formados por um conjunto de espécies arbustivas e arbóreas de pequena altura (até 6m) e muito adensados. A presença desses capões modifica o ambiente da canga couraçada, propiciando condições de sombreamento, maior retenção de umidade, matéria orgânica para o solo, e permite a ocorrência de espécies florestais. Nessas “florestas anãs” encontramos de forma recorrente o pau-d´óleo (Copaifera langsdorffii, Fabaceae) , Clusia arrudae (Clusiaceae) , o pacari ( Lafoensia pacari, Lythraceae), a canjerana ( Cabralea canjerana, Meliaceae) e Myrcia fallax (Myrtaceae). No estrato herbáceo e na zona ecotonal dessas matas, são freqüentes espécies das famílias Araceae, Bromeliaceae e Orchidaceae, algumas delas ameaçadas de extinção, como Oncidium warmingii e Aechmea bromeliifolia. Nos campos rupestres da Serra do Cipó e do Planalto de Diamantina, os capões constituem estágios temporários da colonização de áreas campestres por componentes florestais (Meguro et al., 1996). A composição florística, a gênese e a dinâmica dessa formação no Quadrilátero Ferrífero é ainda desconhecida.