NOTA DE ESCLARECIMENTO DA FUNDAÇÃO
BIODIVERSITAS EM RESPOSTA AO SENHOR MINISTRO DE ESTADO
DE MEIO AMBIENTE CARLOS MINC SOBE A LISTA BRASILEIRA
DA FLORA AMEAÇADA DE EXTINÇÃO
Em uma nota de esclarecimento recentemente publicada
na imprensa eletrônica do MMA, o Senhor Ministro
Carlos Minc faz uma série de considerações
tentando justificar a inclusão na lista oficial
de plantas ameaçadas apenas 472 das 1495 propostas
pela Biodiversitas acusando-a de ter sido "negligente"
na condução do projeto. Repelimos esta
acusação por ser injusta e por não
se coadunar com a verdade dos fatos. Alega o Senhor
Ministro que as informações enviadas
pela Biodiversitas não correspondem às
utilizadas pelos pesquisadores para a proposta da
lista ao Ministério e por isso não permitiram
a seus técnicos avaliar se as espécies
de plantas estavam realmente ameaçadas. Isto
teria ocorrido com 1079 espécies na lista oficial
que foram colocadas na categoria DD, ou seja, Deficiente
em Dados. No entanto, a lista que a Biodiversitas
encaminhou ao MMA reproduziu integralmente as informações
produzidas pelos 299 botânicos que participaram
de todo o seu processo de elaboração,
sendo a avaliação baseada nos critérios
da IUCN, hoje adotados internacionalmente com sucesso.
Da decisão final sobre as espécies que
deveriam constar da lista, ocorrida durante um Workshop
que teve duração de quatro dias, participaram
100 botânicos e o MMA e o IBAMA se fizeram representados.
A utilização desses critérios
no projeto de elaboração da lista foi
acordado em reuniões preliminares entre os
técnicos da Biodiversitas, do Jardim Botânico
do Rio de Janeiro (JBRJ), da Rede Brasileira de Jardins
Botânicos, do IBAMA e do MMA e dos coordenadores
temáticos, estes, experientes especialistas
nas famílias botânicas do Brasil. Assim,
não há dúvida que a mesma informação
usada pelos 299 botânicos (onde o JBRJ, órgão
do MMA, esteve muito bem representado) para colocar
na proposta da lista 1495 espécies de plantas
não foram suficientes para que elas fossem
homologadas pelos técnicos do MMA, obviamente
em número bem menor e de menor qualificação
na área de botânica que os botânicos
que propuseram a lista. Excluindo-se como improvável
a hipótese de que os botânicos erraram
1023 vezes a discrepância só pode ser
explicada admitindo-se que os técnicos do MMA
adotaram critérios diferentes daqueles adotados
pelos cientistas, o que é lamentável
uma vez que os critérios foram acordados no
início do processo. Várias vezes a Biodiversitas
solicitou ao MMA informações sobre que
critérios utilizou para eliminar 1023 espécies
da lista mas não obteve resposta. Os critérios
utilizados pela Biodiversitas são de amplo
conhecimento, assim como o nome e a qualificação
de todos os botânicos responsáveis pela
indicação das espécies para a
lista. Considerando que o estudo foi parcialmente
financiando com recursos públicos, a transparência
mantida pela Biodiversitas no processo é um
dever à sociedade. Foi proposto pelo Dr. Lidio
Coradin que as espécies descritas há
menos de 10 anos não entrassem na lista por
falta de conhecimentos sobre elas. Isso não
pôde ser aceito tendo em vista que muitas espécies
foram descritas quando já estavam ameaçadas,
o que uma questão de fácil entendimento
para os especialistas. A mudança de critérios,
no caso das 1023 espécies de plantas, surpreendeu
a Biodiversitas uma vez que, esses mesmos critérios
foram utilizados e aceitos pelo MMA quando a Biodiversitas
coordenou a elaboração da lista da fauna
brasileira ameaçada de extinção,
dando origem a lista vermelha da fauna vigente no
país. A ampla bibliografia a respeito demonstra
que os critérios da IUCN, inicialmente utilizados
em animais, podem também ser utilizados para
plantas. Entendemos também que existem situações
especiais em que a decisão é difícil.
No caso da lista da fauna isso ocorreu em número
bastante elevado no que se refere aos peixes e invertebrados,
mas houve amplo processo de discussão entre
os técnicos do Ibama, da Secretaria de Aqüicultura
e Pesca, da Biodiversitas e os cientistas envolvidos
no processo. Houve aceitação pela Biodiversitas
e pelos zoólogos da categoria sobrexplotadas
ou ameaçadas de sobrexplotação
e a lista foi homologada em conjunto com a comunidade
científica e o Livro Vermelho das Espécies
da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção,
uma das obras mais importantes já publicadas
no Brasil, está esgotada. Entretanto, no caso
da lista da flora, ao contrário da fauna, faltou
diálogo entre as partes envolvidas. Não
entendemos porque os problemas relativos à
lista de flora não foram levados à Câmara
Técnica Permanente sobre Espécies Ameaçadas,
criada pela Portaria nº 290, de 22 de novembro
de 2004 da Ministra Marina Silva e que ainda está
em vigor com objetivo específico de decidir
os casos difíceis sobre listas de espécies
ameaçadas. Lamentavelmente um encontro entre
os coordenadores temáticos da flora com técnicos
do MMA agendado pela Secretaria de Biodiversidade
e Florestas, Maria Cecília Wey de Brito, com
nossa Superintendente Técnica Gláucia
Moreira Drummond não pôde ser realizado
porque, como nos foi explicado pelo Sr. Lidio Coradin,
o MMA não tinha recursos para as passagens
até Brasília, isso nos pareceu lamentável
diante da importância que teria sido tal encontro.
Estamos certos que se tal encontro tivesse ocorrido,
como ocorreu na lista da fauna, as dúvidas
sobre as espécies da lista poderiam ter sido
facilmente dirimidas. Gostaríamos de deixar
claro também que não temos a menor dúvida
que a palavra final sobre a composição
da lista é do MMA, mesmo que contrarie a decisão
dos cientistas envolvidos no processo. Esta competência
torna-se exemplar quando 35 espécies ameaçadas
segundo a lista da Flora Ameaçada publicada
em 1992 pelo Ibama, consideradas pelos cientistas
Deficientes em Dados ou mesmo Não Ameaçadas,
foram consideradas ameaçadas pelo MMA na lista
atual com base no principio da precaução.
Certamente se o mesmo princípio tivesse sido
usado para pelo menos parte das 1023 espécies
consideradas como Deficiente em Dados pelo MMA estariam
na lista de ameaçadas.
Antes de terminar estas considerações
gostaríamos de deixar claro que nunca questionamos
a competência e a atribuição do
MMA de coordenar a implementação da
Política Nacional da Biodiversidade e a aplicação
de seus instrumentos e sempre que solicitados teremos
grande prazer em ajudar o MMA a atingir seus objetivos
nesta área pois são também nossos.
Senhor Ministro, não cabe agora polemizarmos
em torno de falhas ou culpas passadas e sim olharmos
para frente diante do problema das 1023 espécies
de plantas consideradas Deficientes em Dados dentro
das quais certamente estão espécies
ameaçadas que podem se extinguir enquanto polemizamos.
Acreditamos que, em nome do princípio de precaução,
a atual lista deve ser rapidamente reavaliada e estamos
certos que o MMA trabalhará neste sentido.
No uso da nossa característica transparência
e consideração com os colaboradores
da Biodiversitas, informamos que esta nota ficará
disponível no site da instituição.
Na oportunidade, queira aceitar nossos protestos de
estima e consideração.
Atenciosamente,
Cástor Cartelle
Guerra
Diretor-Presidente