O quê é Corredor Ecológico?

Um corredor ecológico é uma área de grande importância biológica, composta por áreas naturais imersas em uma matriz com variados graus de ocupação humana e diferentes formas de uso da terra, onde um manejo integrado permite a sobrevivência de espécies, a manutenção de sistemas ecológicos e evolutivos, a preservação de serviços ambientais e o desenvolvimento de uma economia regional forte, caracterizada pelo desenvolvimento sustentável.

Os corredores ecológicos devem permitir a manutenção dos processos ecossistêmicos (polinização, dispersão de sementes, ciclo hidrológico, ciclagem de nutrientes, entre outros) que asseguram, a longo prazo, a manutenção da biodiversidade e a manutenção do intercâmbio genético entre as espécies de fauna e flora presentes na paisagem. Critérios técnicos como espécies-chave, tamanho e número de áreas protegidas, tipos de uso do solo, representatividade das comunidades bióticas, ecossistemas e habitat, presença de espécies ameaçadas e endêmicas são utilizados para a definição dos corredores ecológicos (MMA et al. 2006).

A criação de corredores ecológicos apresenta-se como uma estratégia bastante interessante para maximizar o tamanho dos fragmentos de vegetação natural. Mais do que atuar como corredores de vida silvestre, os corredores ecológicos representam um esforço para proteção de paisagens, processos ecológicos e diversidade biológica, por um prazo muito mais longo.

Esse novo conceito tem sido defendido por diversos pesquisadores, que identificam um corredor ecológico como uma rede de áreas de proteção integral, como os parques e reservas, e outras de uso mais intensivo, gerenciadas de maneira integrada, de forma a garantir a sobrevivência do maior número possível de espécies de uma região (CABS e IESB 2000).

O objetivo desses corredores é unir fragmentos de vegetação nativa com outros de intensidade de uso moderada, criando áreas grandes o bastante para a sobrevivência e perpetuação de espécies a longo prazo.

 

Muriqui :: Brachyteles hypoxanthus

O muriqui, ou mono-carvoeiro é um primata de ocorrência restrita à Mata Atlântica, cujas populações se encontram ameaçadas pela destruição e fragmentação do hábitat e também pela atividade de caça. É o maior primata do continente americano e o maior mamífero endêmico ao território brasileiro, sendo que os machos podem atingir até 15kg.

O gênero Brachyteles era, até pouco tempo, reconhecido como monoespecífico. Estudos recentes de genética e morfologia revelaram a existência de duas espécies distintas. A espécie que ocorre nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e sul da Bahia é Brachyteles hypoxanthus (Kuhl, 1820), enquanto Brachyteles arachnoides (É. Geoffroy, 1806) ocorre nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e parte do estado do Paraná.

O reconhecimento da existência de duas espécies distintas traz como consequência um agravamento do status de conservação do muriqui, estando a espécie da porção norte muito mais ameaçada. Dessa maneira, é prioritário o desenvolvimento de estratégias de conservação específicas para cada uma dessas espécies.

A Fundação Biodiversitas possui e administra a A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Mata do Sossego, especificamente criada para a preservação do Muriqui.

A Mata do Sossego está localizada no mais extenso e preservado remanescente contínuo de Mata Atlântica entre os municípios de Simonésia e Manhuaçu (MG), a 324 km de Belo Horizonte. Atualmente a RPPN é um núcleo que possibilita a ampliação de estudos científicos na área e o fortalecimento da participação regional, da integração inter-institucional e do incentivo a práticas ambientalmente sustentáveis, visando a formação de um corredor ecológico entre as RPPNs Mata do Sossego, em Simonésia, e Feliciano Miguel Abdala, em Caratinga.

O principal objetivo da RPPN Mata do Sossego é a conservação do maior primata das Américas, o Muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), ameaçado de extinção na categoria Criticamente em Perigo, segundo a Lista das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção (MMA, 2003). Originalmente a distribuição da espécie abrangia grande parte da Mata Atlântica do sudeste do Brasil, desde o sul da Bahia até o Paraná. Atualmente o primata está restrito a pequenos e isolados fragmentos do bioma, o que coloca o muriqui em situação de risco, já que a maior ameaça para a manutenção de populações desta espécie é a destruição da Mata Atlântica.

Estima-se que entre 700 e 1000 muriquis-do-norte vivam nos remanescentes florestais de Minas Gerais e Espírito Santo. Em Minas Gerais, a ocorrência destes primatas foi confirmada em apenas dez remanescentes de mata, refletindo o estado de ameaça de B. hypoxanthus e a degradação de seu hábitat natural.

Com o avanço dos cafezais e das pastagens na região, enormes vazios verdes vão-se ampliando entre Simonésia e Caratinga, favorecendo a fragmentação dos remanescentes florestais e a diminuição de suas áreas. O projeto "Mapeamento e Caracterização dos Remanescentes de Mata Atlântica no eixo Simonésia-Caratinga, Minas Gerais" (2003/2004) desenvolvido pela Fundação Biodiversitas e financiado pela Fundação O Boticário, forneceu importantes informações quanto à criação de um Corredor Ecológico Simonésia-Caratinga.

Assim como outros fragmentos da região, a RPPN Mata do Sossego constitui uma importantíssima área de conservação da Mata Atlântica, principalmente para o muriqui (Brachyteles hypoxanthus), espécie endêmica de Minas Gerais e Espírito Santo, das mais ameaçadas de extinção em todo o mundo. Por esse motivo, o wokshop "Atualização do Atlas de Áreas Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade em Minas Gerais", realizado em outubro de 2003 e coordenado pela Biodiversitas em parceria com a Conservação Internacional e órgãos vinculados à SEMAD/MG – Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais - ratificou a classificação do "Atlas de Áreas Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade em Minas Gerais", edição de 1998, como base legal para elaboração de políticas públicas no estado. Classificada como área de "Importância Biológica Muito Alta", as recomendações do documento são voltadas para a criação de outras unidades de conservação, promoção de conectividade entre os remanescentes florestais e maiores investimentos em pesquisa.

A área que hoje é chamada Reserva Particular do Particular do Património Natural Feliciano Miguel Abdala (RPPN-FMA) surgiu no meio científico com o clássico trabalho do Zoólogo Álvaro Aguirre sobre o mono ou muriqui, publicado em 1971. Mas somente no início da década de 1980, após a redescoberta do muriqui, Zoólogos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sob a liderança de Célio Valle, iniciaram uma campanha para proteção e estudo científico nessa área. Na ocasião, primatólogos e conservacionistas como Russell A. Mittermeier, Adelmar F. Coimbra Filho e Ibsen G. Câmara juntaram-se à equipe da UFMG, num esforço conjunto para preservação e estudo da biota local. As investidas em busca do muriqui revelaram a presença de outro primata ameaçado de extinção, o sagui-da-cara-amarela, que até então acreditava-se restrito ao Estado do Espírito Santo.

Além da presença do muriqui e do sagui-da-cara-amarela, os pesquisadores observaram que a área tinha uma alta densidade populacional do barbado ou bugio-ruivo e do macaco-prego, e perceberam ali uma área de grande potencial para o desenvolvimento de estudos primatológicos. Com o apoio do proprietário da Fazenda, Feliciano Miguel Abdala, da UFMG, do WWF - World Wildlife Fund e da Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, foi criada a Estação Biológica de Caratinga (EBC), inaugurada em maio de 1983. Naquele mesmo ano, o muriqui foi o símbolo do Congresso Brasileiro de Zoologia, realizado em Belo Horizonte, e as novas descobertas sobre Caratinga foram amplamente divulgadas neste evento.

A família Abdala sempre recebeu bem os cientistas e conservacionistas brasileiros e estrangeiros.Nos primeiros anos,os pesquisadores passavam os dias na floresta e a noite em acomodações oferecidas pelo Sr. Feliciano Abdala. Entretanto, ele reconhecia que o trabalho de campo era árduo e procurou facilitar ainda mais o trabalho dos pesquisadores, doando uma casa com mais fácil acesso à mata. A inauguração da Estação Biológica, representou um grande avanço, ao fornecer uma infraestrutura essencial para estudos de longo prazo, como, por exemplo, o projeto muriqui.

O estabelecimento da EBC envolveu a reforma da pequena casa de colono doada pelo Sr. Feliciano, que passou a ser tratada de laboratório de campo e teve a função de abrigar os diversos pesquisadores e estudantes que, a partir de então, começaram a frequentar a área. Não demorou para que o potencial científico da EBC ganhasse fama internacional, atraindo cientistas de diversos instituições, principalmente interessados em primatologia.

No ano de 2001, por iniciativa da família e com apoio de cientistas e conservacionistas, a EBC foi declarada pelo IBAMA Reserva Particular doPatrimónio Natural, passando a se chamar RPPN Feliciano Miguel Abdala, consolidando os esforços iniciados há mais de 30 anos por Álvaro Aguirre.

A importância da RPPN vai além do santuário que ela representa para os muriquis e para outros elementos da flora e fauna endémicos da Mata Atlântica, ao simbolizar a consolidação de esforços científicos de longo prazo. Os estudos têm abrangido tanto o reino animal quanto vegetal, confirmando a presença de uma diversidade única de formas de vida, muitas das quais restritas a escassas localidades da Mata Atlântica. De anfíbios a aves, de moluscos a insetos, de musgos a grandes árvores, o inventário de espécies na RPPN-FMA continuará crescendo, na medida em que forem iniciados novos esforços de pesquisa para documentar sua diversidade, principalmente com os estudos de longo prazo sobre a ecologia e comportamento dos primatas da Mata Atlântica. Os primeiros estudos de longo prazo sobre o sagui-da-cara-amarela, sobre o barbado e sobre o muriqui-do-norte foram iniciados aqui no início da década de 1980. Apesar da importância destes primatas por serem ameaçados e endémicos da Mata Atlântica, seu comportamento e ecologia eram previamente desconhecidos, como da maioria das espécies que habitam esta mata. Célio Valle e seus estudantes foram os primeiros a levar a floresta e seus primatas ao domínio público, mas a lista dos pesquisadores que os seguiram é agora muito grande para ser citada. Desde o trabalho de Aguirre, foram 22 projetos de pesquisa independentes, quatro monografias de Graduação, 24 dissertações de Mestrado, 10 teses de Doutorado e um pós-Doutorado.

A RPPN-FMA tem consolidado sua reputação internacional como um centro para pesquisa de campo.

O Projeto Muriqui de Caratinga, agora no seu 21° ano, tem sido o "carro-chefe" das pesquisas na RPPN e o de mais longo prazo de sua natureza, representando o que pode ser alcançado quando os objeti-vos de cientistas e conservacionistas coincidem. As descobertas científicas sobre os muriquis incluem sua excepcionalmente pacífica vida social e sua habilidade para encontrar os alimentos de que necessitam numa mata que agora encontra-se oficialmente protegida. O monitoramento do notável sistema reprodutivo dos muriquis, revelou como pequenas populações podem se recuperar quando elas e suas matas estão protegidas, e tem ajudado no estímulo a novas iniciativas de pesquisa.
Como um centro de pesquisa de campo, além do seu apoio à ciência básica, a RPPN-FMA tem favorecido a cooperação internacional, além de oferecer um suporte para o treinamento de estudantes em ativi-dades de campo. Somente no projeto muriqui, nas suas duas primeiras décadas, mais de 30 estudantes brasileiros foram treinados e muitos vieram a desenvolver projetos afins que contribuem para os esforços de conservação em outros locais. As colaborações internacionais de longo prazo, envolvendo treinamento de estudantes, não são tão comuns como se poderia pensar, e aquelas realizadas na RPPN-FMA tem tido sucesso por causa da comunhão de esforços a favor da pesquisa e conservação biológica.

A RPPN-FMA é também muito importante no contexto dos estudos da fragmentação de ecossistemas, um aspecto crucial em biologia da conservação. Por se tratar, praticamente, de uma ilha de Mata Atlântica de cerca de 1.000 ha, numa região fortemente devastada, as pesquisas nesta área tem sido de grande relevância para a compreensão dos efeitos da fragmentação sobre a biodiversidade. As pesquisas de longo prazo fornecem informações sobre a dinâmica das populações e ecossistemas, impossíveis de serem obtidas nos estudos de curto prazo que em geral são realizados em outras áreas.

As pesquisas na RPPN-FMA tem se adequado aos mais altos padrões de conduta ética científica, com a conservação da mata e seus habitantes representando a mais alta prioridade. O projeto muriqui já atingiu a maioridade e agora se estende para outras áreas da mata, englobando aspectos ecológicos como fenologia e produtividade primária, além do estudo da variabilidade genética da população com o uso de técnicas não invasivas. A entrada da RPPN no programa TEAM, da Conservation International, marca o início de uma nova etapa, que deverá agregar valor ao potencial científico dessa estação de pesquisa, através de estudos comparativos de longo prazo. As novas iniciativas reforçam o principal papel da pesquisa na RPPN-FMA, que continuará a refletir um esforço compartilhado para a conservação, e a contribuição que a ciência pode dar para garantir o futuro não só desta mata e de seus habitantes, mas também como um modelo a ser aplicado em outros.